Santo André

Blog da Vila
por Léa Penteado

Antes de existir blogs, quando havia concurso de redação escolar, eu já escrevia. A curiosidade me levou aos 20 anos a ser repórter em uma editora de revistas e quando vi era jornalista. Portas foram abrindo e, além de centenas de reportagens contando fatos e histórias de anônimos e celebridades, escrevi um espetáculo para teatro, fui autora de pequenos seriados para a TV, argumento para um filme, três livros e, quando chegou o blog, descobri que podia ser contadora da minha própria história e o que tivesse no entorno. Escrevo por que é vital, é como respirar.

Sobre a Pousada Victor Hugo

Esse cenário me remete a uma história…

Na segunda metade dos anos 80, os amigos Victor e Ugo deixaram o Rio de Janeiro rumo a Porto Seguro. Um dia, decidiram explorar o litoral norte e, dirigindo um buggy até o fim da estrada, chegaram a um rio. Não havia balsa para cruzá-lo — apenas um barquinho. Conduzidos por um barqueiro, seguiram por uma trilha que margeava o mangue até a praia… e se encantaram. Era um vilarejo com pouco mais de 200 moradores. Decidiram comprar um terreno e construíram uma casa. Depois, veio a ideia de uma pousada. Adquiriram uma área à beira-mar.

Nascia ali uma sociedade perfeita. O nome unia os dos empreendedores e homenageava o escritor francês Victor Hugo, que ambos admiravam. Ugo, que morava em Milão, trazia o bom gosto e a arquitetura na alma. Victor, em Ipanema, vinha do mercado financeiro — era administrador e ótimo de conversa. Assim, em dezembro de 1994, foi inaugurada a Pousada Victor Hugo.

No início, havia apenas o salão, o bar, a varanda, a cozinha, dois chalés e as espreguiçadeiras na praia. O jardim ainda era árido, a restinga rasa. Criaram, então, um jeito diferente de receber — sentido nos lençóis e toalhas sempre brancos, no clima elegante e descontraído que fazia os hóspedes se sentirem em casa. Tudo muito exclusivo, único, com glamour num clima de acolhimento com axé e estilo. No bar variedade de destilados, fermentados e o espumante sempre gelado; o cardápio era enxuto, com destaque para o inesquecível peixe ao molho de vinho.

Assim, na base dos bons relacionamentos e de “boca a boca”, passaram a ser descobertos por hóspedes notáveis. Tempos em que, no salão, na varanda ou na praia, corriam conversas inteligentes entre atores, escritores, terapeutas, acadêmicos, cantores, jornalistas, doutores e investidores — gente que buscava privacidade até para um topless livre à beira-mar. Nos pés a tradicional sandália havaiana e, em noites mais frescas, jogado nos ombros um cashmere autêntico. Trilha sonora do jazz aos clássicos da mpb. Atrás do balcão do bar, o bom humor (às vezes ácido) dos proprietários também ajudava a fortalecer a marca.

Victor conduziu a pousada até sua morte, em dezembro de 2001. Ugo a vendeu em março de 2014. A Pousada Victor Hugo tornou-se referência e símbolo de pioneirismo no turismo da orla norte de Santa Cruz Cabrália, deixando boas memórias para todos que por lá passaram — ou ouviram suas histórias.

No salão, entre peças contemporâneas trazidas da Itália e arte local, havia sempre uma obra do escritor Victor Hugo. Em francês, é claro. E dele extraio uma frase que parece escrita para essa história: “Não há nada como o sonho para criar o futuro.”

E, quando não se tem mais sonhadores, fica assim, abandonada, coberta de folhas secas. Apenas memórias

Fotos 2006 Alexandre Campbell @xandecampbell